terça-feira, 2 de setembro de 2008

Resenha: Janela da Alma

Dos renomados diretores, Walter Carvalho (Madame Satã / Abril Despedaçado) e João Jardim o filme Janela da Alma é um interessante convite ao telespectador a respeito de que o processo de percepção das coisas não se dá apenas através da visão, mas vai muito alem disso. Lançado em 2002, pela Europa Filmes, em gênero de documentário, o filme apresenta dezenove depoimentos dentre esses, alguns de famosos como o do prêmio Nobel José Saramago, o músico Hermento Pascoal, o cineasta Wim Wenders e a atriz Marieta Severo.

Todos os participantes do filme possuem uma deficiência visual variando da miopia à cegueira total, sendo que um dos depoimentos mais interessantes e humanos é o do vereador do PT (Partido dos Trabalhadores), Arnaldo Godoy, que é cego e sua filha, Mariana Godoy. Ambos falam da sua experiência de vida no convívio com a deficiência. Arnaldo da maneira como se adaptou, uma vez que, ainda criança perdeu a visão por conta de uma doença e sua filha da forma como lidou com uma pessoa cega. De acordo com Madalena, embora existissem as dificuldades ela nunca encarou a cegueira total do pai como um problema. Pelo contrário, ele era motivo de orgulho e admiração para ela, pois apesar da falta de visão sempre levou uma vida sem repressões.

Outro ponto forte do documentário é a participação do fotógrafo franco-esloveno, Eugen Bavcar, que também é cego, mas que, no entanto, consegue fazer belas fotos com o auxilio do tato, da imaginação e da audição. Prova disso, foram as fotos da sobrinha apresentadas por ele. Na ocasião ela corria pelo campo com um pequeno sino em mãos, ele orientado pelo barulho produzido pelo chacoalhar do sino se orientava e conseguiu lindas fotos em movimento, provando então que a audição, alem da visão é uma outra forma de sentir e perceber o mundo.

Enfim, no filme os diretores propõem uma profunda reflexão sobre o olhar, como ele se dá e mais: será que o fato de enxergar garante-nos a real percepção das coisas e o êxito na vida? Talvez não. Todos os depoentes do filme possuem uma deficiência, ainda que total, porém são todos bem sucedidos em suas carreiras. Com um título que remete-nos o centro das emoções e sentimentos humanos, que é a alma fica a seguinte conclusão: se os olhos são a janela da alma, devemos realmente olhar para essa janela com outros olhos, mas esses olhos podem variar de uma pessoa para outra de acordo com a sua deficiência ou sensibilidade.

JANELA da Alma. Direção: João Jardim e Walter Carvalho. Intérpretes: José Saramago, Wim Wenders, Paulo Cezar Lopes, Agnes Varda, Marieta Severo, João Ubaldo Ribeiro, Walter Lima Jr., Arnaldo Godoy, Eugen Bavcar e outros. Brasil: Europa Filmes, 2002. 1 DVD (73 min).

Fib promove palestra com Domingos Meirelles




André L S Freire

“Definir-se como profissional e escolher de quer lado ficar, dos opressores ou dos oprimidos”. Essas foram umas das primeiras palavras do jornalista e apresentador do programa Linha Direta, da Rede Globo de Televisão, Domingos Meirelles durante a palestra intitulada Mídia e Violência, que ocorreu na última terça-feira (27), no Fiesta Bahia Hotel, em Salvador.

O evento que foi organizado pela FIB Centro Universitário da Bahia, contou com a presença de vários alunos e professores do curso de jornalismo, que lotaram o auditório do primeiro andar. Estiveram presentes também o reitor da FIB doutor Nelson Cerqueira e o professor Paulo Leandro, coordenador do curso e que foi um dos idealizadores do evento.

Durante a palestra, Domingos Meirelles contou um pouco da sua trajetória na profissão, desde quando era vendedor de máquinas de escrever e ingressou no jornal carioca Última Hora, até sua chegada a Rede Globo de televisão, onde segundo ele foi mal recebido e teve que quebrar muitos dogmas que permeavam a atividade no veículo, a exemplo da utilização de barba e o fato de não ter origem, nem conhecimento aprofundado, até então, em televisão. “Fui recebido de uma forma hostil, de uma forma que jamais me esquecerei”, acrescentou.

Voltando-se para o tema Mídia e Violência, Meirelles destacou que as críticas sobre como a mídia trata o assunto perante a sociedade não são recentes, mas existem desde a época imperial, quando Dom Pedro I já acusava a impressa de estimular o crime ao relatar em suas páginas suicídios e homicídios, ocorridos na cidade do Rio de Janeiro. Contudo, ele complementou falando que o assunto tem uma dimensão muito grande e que cada caso tem suas próprias características, ou seja, a mídia de fato pode ser um veículo a serviço do mal, embora esse não seja o seu objetivo. Ele comprova isso contando um episódio ocorrido na Rede Globo, em 1994, em que uma matéria que visava mostrar a fragilidade na blindagem dos carros transportadores de valores, conhecidos como “carros-fortes” acabou despertando os bandidos e gerando por tanto, uma onda de assaltos a esse tipo de veículos, jamais vista antes no país. Meirelles complementa, então falando que definir o que pode servir ou não ao crime é uma responsabilidade muito grande, diante da dinâmica da profissão, onde em muitas situações é definido se uma matéria vai ao ar ou não em questão de segundos. “É preciso ter uma percepção, uma sensibilidade quase extra-sensorial, uma delicadeza de sentimentos para saber detectar se aquela matéria informa mais a sociedade ou se aquela matéria tem interesse imediato do mundo do crime”, concluiu.

Na saída, os interessados tiveram ainda a oportunidade de ter um contato mais próximo com Domingos Meirelles, tirar fotos, além de adquirir um dos livros escritos por ele, a exemplo de As noites das grandes fogueiras e 1930: os Órfãos da Revolução, obra que fala sobre a conspiração que deu origem à Revolução de 1930

A palestra durou cerca de 1h 40 e dividiu opiniões, quanto à discussão do tema proposto. Ao término, alguns acharam ter fugido totalmente ao assunto, enquanto outros se mostraram satisfeitos com o evento. Para o estudante de jornalismo Osvaldo Marques, embora vários outros assuntos tenham sido abordados, o tema foi explicado com clareza e objetividade, além de destacar que só o fato de se tratar de um jornalista de renome já tornou a palestra significava. Entretanto, para Everaldo Santos, estudante do 4º de jornalismo, o evento teve mais o caráter de auto-promoção, uma vez que, Meirelles contou muitas histórias vivenciadas por ele, na profissão, e se ateu pouco ao tema mídia e violência.

Procurado logo após a palestra, o coordenador Paulo Leandro, disse que o evento atendeu suas expectativas e quando questionado sobre a importância desse tipo de conferência para o alunado, ele ressaltou que o objetivo era sair um pouco da ilha acadêmica para ter um contato com um profissional que tivesse uma vasta experiência na área jornalística. E concluiu dizendo que independente de qualquer coisa o foco maior era: “(...)tentar abrir para o mundo exterior e conhecer um jornalista de “carne e osso”, com uma carreira de 43 anos, trazer a experiência de alguém que viveu na pele com uma trajetória profissional intensa.”